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, e não tá tudo bem

Quando vi a notícia de que o zap ia mudar os termos de uso, nos deixando sem nenhuma proteção e privacidade, pensei: bom, tá na hora de abandonar essa porcaria. Achei que seria fácil. A maioria de mis amigues usa outras plataformas de mensagem e quem não usa provavelmente toparia usar, então isso não seria uma questão. Além disso, e mais importante, meu trabalho não depende de ter whatsapp. Eu só teria que me acertar com a minha terapeuta e o meu psiquiatra e estaria tudo certo. O que não tinha percebido era que o zap é o meio de comunicação de literalmente tudo. Não que eu não soubesse disso, é claro que sabia, mas foi quando passei a considerar sair do zap de verdade e preparar essa saída pra não perder certos contatos que senti o que isso significava de fato - principalmente em meio a uma pandemia em que precisamos nos manter em isolamento em que a forma de se relacionar com qualquer pessoa é através de meios on-line. De repente, percebi que, sem o zap, não teria acesso às minhas au...

Fim da picada

Não sei quando isso de spoiler se tornou o que se tornou, mas particularmente me cansa. Nada contra você pessoalmente não querer saber o final de uma obra que cê tá lendo/ assistindo, mas isso ser Uma Questão toda vez que estamos falando de histórias é cansativo, porque se a gente não pode tratar sobre o final, a gente não pode elaborar críticas completas, e daí temos que nos contentar com mais um texto sobre As Mulheres De [Qualquer Bosta] ™ , algo que é impossível de satisfazer de verdade qualquer pessoa que pense um pouco.  Eu não sei qual é a causa e qual é a consequência (até porque não dediquei muito tempo da minha vida refletindo sobre isso), mas é óbvio que essa cultura de "sem spoiler" está relacionada de maneira intrínseca à maneira com obras mainstream têm sido produzidas [vide Marvel escondendo dos próprios atores com quem eles deveriam estar na cena?!??! BABACAS]. E é claro que a produção afeta a recepção e a recepção afeta a produção - afinal, a vida é complexa....

Pensando n'Ele

Mesmo depois de um ano e meio, eu ainda penso n'Ele: o Padre Gato. Maior que deus e mais humilde que o mesmo, o Padre Gato não é um personagem qualquer, ele é um fenômeno. (Perdendo apenas para o ator Jo Jung-Suk, o fenômeno dos fenômenos, mas isso é outra história.)  Admito: não entendia por que tantos falavam do Padre Gato. Na época, não tinha conseguido ver nem o primeiro episódio da primeira temporada inteiro de Fleabag, e vi fotos do que alegavam ser o Padre Gato e pensava: mas... ele não é gato... Até que aconteceu. Eu vi a segunda temporada e fui destruída por Ele, o Padre Gato. Muitos podem achar que o apelo do Padre Gato é o fato de aquele ser um amor impossível, mas eu digo aqui com tranquilidade: todas essas pessoas estão erradas.  O Padre Gato é objetivamente gostoso? Sim. Tira a cabeça e deixa o corpo e você verá um homem gostoso.  O Padre Gato é objetivamente ridículo comprando roupas de padre e sendo perseguido por raposas? Sim. E eu o amo por isso. Mas iss...

AI COÉ

Não sei quem por aí tá sabendo do Barack Obama Book, mas é basicamente uma biografia do Obama escrita por um AI (inteligência artificial) e que chegou em posição 114 na Amazon, e em primeiro no corte de lideranças políticas. Como uma pessoa que tenta evitar estadunidenses, eu só vim a saber disso pela newsletter Garbage Day , que é um excelente resumo da bagunça que é a internet - e que sempre me faz refletir sobre dinâmicas e fenômenos on-line e como eles refletem na vida pra além das telas (um assunto que tem me interessado cada vez mais). Dessa vez, ao falar sobre o Barack Obama Book, o Ryan Broderick (autor da Garbage Day) contou que um medo que ele tem é de chegarmos a um ponto de distopia em que só as classes mais ricas têm acesso a arte e entretenimento feitos por humanos, enquanto o povo é alimentado apenas por entretenimento gerado por AI. E por mais que eu acredite que, como humanos, nós sempre vamos dar um jeito de produzir arte e cultura independentemente do que o mainstre...

tropa da trupe da trope

 Numa entrevista com uma autora de ya, uma blogueira de livros perguntou: "quais tropes podemos esperar do seu livro?". Pedindo pra seguir o fio, autores, blogueiros e outras pessoas que trabalham diretamente com livros colocam certas tropes como motivação pra ler um livro: enemies to lovers; fake dating; mutual pining; nerds in love etc. Pessoal no tuíter vira e mexe cria alguma corrente sobre tropes preferidas, eu também entro nessas. Tudo parece normal, natural.  Trope, ou "tropo" se formos usar o termo em português, na literatura, é uma figura de linguagem que serve pra uma porrada de coisa, mas nesse contexto ela basicamente quer dizer clichê. No cinema, o conceito derivou um pouco, sendo definido como "uma imagem universalmente* identificada embutida de várias camadas de significado contextual, criando uma nova metáfora visual". Me parece uma forma mais generosa de se pensar um clichê, entendendo que ele pode ser bem usado e trabalhado. Quando o clic...

O autor está morto e eu o invoquei

Eram onze e meia da noite outro dia quando pensei: epa, talvez o problema seja que as pessoas não entendem o que significa quando alguém diz que o autor tá morto. Então fiz o que faço num momento como esse: passei meia hora mandando mensagem sobre o assunto pra minha amiga, que estava dormindo. As mensagens começaram bem, analíticas, tentando conectar os pontos, mas depois de meia hora digitando no celular as coisas desandam um pouco, com mensagens como "PAAAAA!!! Problematizeri" [sic] e alguns xingamentos, é verdade. Mas, ainda assim, no fim de tudo, eu disse que ia fazer um luigi board ou jogo do copo pra invocar o Barthes e escrever um novo artigo, que se chamaria O AUTOR ESTÁ MORTO E EU O INVOQUEI. Eu não invoquei o Barthes de verdade, porque não mexo com isso de espírito. E nem vou escrever um Artigo, porque não me odeio. Mas o texto tá aqui de qualquer forma: Talvez o problema seja que as pessoas não entendem o que significa quando alguém diz que o autor tá morto. Dize...