tropa da trupe da trope

 Numa entrevista com uma autora de ya, uma blogueira de livros perguntou: "quais tropes podemos esperar do seu livro?". Pedindo pra seguir o fio, autores, blogueiros e outras pessoas que trabalham diretamente com livros colocam certas tropes como motivação pra ler um livro: enemies to lovers; fake dating; mutual pining; nerds in love etc. Pessoal no tuíter vira e mexe cria alguma corrente sobre tropes preferidas, eu também entro nessas. Tudo parece normal, natural. 

Trope, ou "tropo" se formos usar o termo em português, na literatura, é uma figura de linguagem que serve pra uma porrada de coisa, mas nesse contexto ela basicamente quer dizer clichê. No cinema, o conceito derivou um pouco, sendo definido como "uma imagem universalmente* identificada embutida de várias camadas de significado contextual, criando uma nova metáfora visual". Me parece uma forma mais generosa de se pensar um clichê, entendendo que ele pode ser bem usado e trabalhado. Quando o clichê se torna trope, ele se torna também respeitável. E, aparentemente, bem quisto.

Com a ascensão das fanfics, o conceito de trope cresceu muito no vocabulário de fãs, a ponto que estas se tornaram uma espécie de tradição literária dentro das fanfics. Coffee shop AU, soulmates tattoo, friends to lovers e assim por diante. Tem uma vida inteira de tags que se tornaram tropes - que podem, inclusive, ser catalogadas em sessões de trope, como universos alternativos, dinâmicas relacionais ou situações momentâneas. E essa lógica ~tageável~ é o que me parece que tem sido usada ao falarmos de livros, quase como que as tropes estivessem fechando uma volta que saiu da literatura e, agora, volta pra ela modificada.

É quase como se o conceito tivesse vivido a Jornada do Herói. Saiu de seu espaço confortável como figura de linguagem, conheceu novos mundos, fez amigos no cinema e na fanfic, fez inimizade na crítica, lutou com os gigantes, venceu, morreu, reviveu, e enfim retorna à casa modificado. 

A Jornada do Herói não é uma trope, mas sim uma estrutura narrativa. Dentro dessa estrutura, podem até enfiar umas tropes, mas o que existe mesmo são os topoi.

Topoi ou, no singular, topos é a palavra grega pra "lugar". Na literatura, o topos é considerado o "lugar comum", certos momentos que definem a estrutura da obra e que são fundamentais para que a narrativa se movimente. A profecia em Édipo e Hamlet, a catábase na Odisseia e na Eneida, mesmo a invocação das musas na Odisseia e n'Os Lusíadas. Todos os clássicos passam por esses "lugares comuns", com os autores se valendo dessas noções para superar (ou, em termos técnicos, emular*) o que o outro escreveu e, assim, criando a tradição literária.

E o que isso tem a ver, né?

Pois bem. De uns tempos pra cá, venho muito incomodada com a forma com que falamos e lidamos com tropes pensando especificamente em livros. Tenho visto muita gente falando de tropes em livros como falamos em fanfic ou em filmes de comédia romântica e, apesar de eu ser fanfiqueira e grande apreciadora de romcoms, entendo que livros não são nenhuma dessas duas coisas. E, por mais que ache interessante a aproximação de diferentes meios, o jeito com que temos feito isso tem me incomodado.

Minha teoria é que temos tratado toda forma de arte como entretenimento e todo entretenimento do mesmo jeito, ignorando as particularidades de cada formato. Isso, pra mim, tem muito a ver com a recepção das obras literárias e como o mercado responde a essa recepção, mas esse é um assunto que, apesar de eu circular muito em torno dele, ainda preciso pensar mais pra vir aqui falar alguma coisa. 

Mas as tropes. 

Bom, a trope, pra mim, é aquilo que fica entre o clichê e o topos. Ela é bem aceita e não é vista como ridícula de maneira pejorativa, como é o caso do clichê, mas também não é algo que influencia o ritmo ou o formato da narrativa. O topos é algo que existe pra ser emulado, a trope é só a cópia. Ela é comercial, vende. Enquanto o topos é aquilo que desafia tanto a escrita e a leitura, a trope me parece facilitar.

Isso não é um problema em uma fanfic, que trabalha com personagens que já conhecemos, amamos e nos importamos em diferentes situações. Ou mesmo numa comédia romântica, que por princípio trabalha com clichês. Inclusive, deixo claro aqui que gosto de obras que sabem trabalhar clichês - são divertidas! Mas são coisas diferentes.

Faz algum tempo já que vi uma menina falando mal disso de livros operarem por tropes e usarem isso pra vender, porque ela disse que o que fazia a trope ser apelativa pra ela (e aqui coloco no geral) é que ela já conhece e se importa com os personagens. Ela já tem o desenvolvimento deles e entende suas trajetórias. E é porque ela gostou disso que ela quer ficar mais tempo com eles e poder imaginá-los em outras situações. E isso faz sentido porque é pra isso que a fanfic serve. Nós lemos e escrevemos fanfic pra estar mais tempos com os personagens que gostamos. Existe um propósito daquilo existir no mundo que é externo, os fãs*.

A literatura, por sua vez, não está a serviço de nada. O livro precisa criar um propósito dentro de si próprio. A fanfic é feita pra agradar seu leitor e seu escritor. O livro não. São meios diferentes. E não é porque é uma história que isso torna possível transferir a forma de pensá-la e de lhe atribuir valores independente do meio em que foi criada! Não!!! O meio importa!! Porque o meio implica também na forma. E forma e conteúdo andam de mãos dadas.

Isso não sou eu dizendo que tem que acabar a trope e que não devemos colocá-las em livros. Mas usá-las como valorativo pra história contada é o que me parece esquisito. Porque as tropes não movem ou estruturam narrativas. E se paramos de pensar a forma, paramos de pensar a literatura. 


fui 🌻


OPA OPA OPA! Antes de você ir embora: falei mais sobre topos na minha newsletter, em um texto sobre O Processo (não é o livro do Kafka, é só uma brisa minha sobre niilismo e caos). Contei mais sobre um dos meus topoi preferidos, A Máquina do Mundo, e acho que ajuda a entender melhor o que raios tô dizendo sobre o assunto nesse texto. Então, clicaí no link! Aproveita e assina a newsletter.



*(1) o que é universal, né?

*(2) eu vou ter que vir um dia aqui falar de emulação, tô ligada

*(3) ouso dizer que o mesmo vale pra comédias românticas, mas daí já não tenho embasamento teórico, então vamos deixar quieto


Comentários

  1. Nem tenho como te cancelar porque não sei nem me ORGANIZAR pra decidir se concordo ou não contigo HAHAHAHAHAHHAAH

    Na verdade me deu bastante o que pensar, ainda mais que eu tenho a PRETENSÃO de UM DIA publicar algo kkkkkkk e gosto muito de tropes/clichês/whatever. De fato histórias "originais", digamos assim, não se sustentam só com cenas clichês.

    Ps: quero ler mais sobre você falando de topoi!!! (sim vou ler a news porém aceito posts aqui kkkkkkkk)

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    1. Também gosto de tropes e clichês se bem trabalhados! Meu ponto é que acho esquisito usar isso como valor ao se pensar literatura. E colocar isso de uma forma mais central ao se falar de livros me parece perder o que realmente importa (não me pergunte o que isso significa, ainda não sei) (esse é um blógue pra pensamentos altos). Nem é uma questão de originalidade também (até porque o que é originalidade, né), mas só de pensarmos literatura como trabalho formal nesse sentido maior da estrutura narrativa, e não de simples acontecimentos na história, faz sentido?

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    2. Voltando aqui semanas depois e Pensando Pensamentos HAHAHAHAHAH

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    3. Mas não vai contar quais os Pensamentos Pensados?!??!

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  2. Quanto mais homem véio você se torna, mais eu amo você *solta a fumaça de cigarro*

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  3. Acho que não entendi bem a CRÍTICA pois carece de exemplos pra gente devagar, vou ter que conferir os textos de apoio Hahahahah

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    1. Não coloquei exemplos porque, ao contrário do que diz as tags, não quero arrumar treta com ninguém em específico!! Mas vou considerar com carinho a sua sugestão de chamar as pessoas pro soco, prometo kkkkk

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