AI COÉ

Não sei quem por aí tá sabendo do Barack Obama Book, mas é basicamente uma biografia do Obama escrita por um AI (inteligência artificial) e que chegou em posição 114 na Amazon, e em primeiro no corte de lideranças políticas. Como uma pessoa que tenta evitar estadunidenses, eu só vim a saber disso pela newsletter Garbage Day, que é um excelente resumo da bagunça que é a internet - e que sempre me faz refletir sobre dinâmicas e fenômenos on-line e como eles refletem na vida pra além das telas (um assunto que tem me interessado cada vez mais). Dessa vez, ao falar sobre o Barack Obama Book, o Ryan Broderick (autor da Garbage Day) contou que um medo que ele tem é de chegarmos a um ponto de distopia em que só as classes mais ricas têm acesso a arte e entretenimento feitos por humanos, enquanto o povo é alimentado apenas por entretenimento gerado por AI. E por mais que eu acredite que, como humanos, nós sempre vamos dar um jeito de produzir arte e cultura independentemente do que o mainstream nos fornece, esse pesadelo do Ryan me fez Pensar.

Primeiro, o que me fez pensar foi o fato de eu conseguir Ver esse futuro. Logo eu, que não tenho conseguido imaginar nada de futuro dado o momento que estamos vivendo. Depois, porque uma das coisas que me deixa mais bolada quanto a qualquer coisa gerada por AI é que isso depende do que os programadores inserem no sistema pra gerar o algoritmo. Ou, de uma maneira humanizada, tudo depende do que dão pro AI aprender.

Um dos casos que acho mais interessantes é do Communist AI. Basicamente, o que rolou foi que usaram o modelo GPT-2, que é um modelo cujo standart é treinado a partir de textos que humanos escreveram on-line, e inseriram no repertório livros de autores revolucionários, como Marx, Lenin, Fanon, Kroptokin, entre outros. O que os pesquisadores observaram é que a inserção desses autores mudou tanto o entendimento do GPT-2 sobre questões sócio-filosóficas quanto a forma da sua escrita.

Esse é apenas um caso. Outro bastante conhecido é o fato de que carros autônomos (ou seja, operados por AI) têm mais chance de atropelar pessoas não-brancas, porque o algoritmo foi gerado a partir de imagens de pessoas brancas. É um caso muito óbvio de racismo, já é um assunto debatido há alguns anos entre pesquisadores e tem muita coisa sobre o assunto na internet, então não vou me alongar. Meu ponto aqui é só o quão óbvio que é o fato de que o AI depende do que os humanos escolhem que ele aprenda.

E aí fica a pergunta: po, e como fica nas artes?

Existem cinquenta milhões de pontos que a arte gerada por AI levanta. 

Uma delas, obviamente, é a pergunta mais velha do mundo: O Que É Arte? Mas também existem questões de acesso e o que buscamos quando falamos de arte.

Pra mim, isso tem muito a ver com uma questão que venho observado e conversado com algumas amigas sobre mudança de valores na recepção da arte. Hoje em dia, a arte realista ou ultrarrealista ganhou muita força. Na minha percepção, uma série de questões envolvem essa ascensão desse tipo de arte. Primeiro, ainda existe uma rejeição geral da população quanto às artes moderna e contemporânea, bem nessa onda "meu filho de 5 anos faria". Segundo, tem o fato de que, hoje em dia, vemos a arte muito mais através de telas (no instagram, tuíter, sites de artistas, museus ou galerias etc.) do que pessoalmente. E o lance de ver a arte através de tela é que isso tira muito da obra. O tamanho, as texturas, os diferentes ângulos e dimensões, os erros etc. E tudo isso ajuda a compor a famigerada ~aura~ da obra. 

Em terceiro, e aqui é uma percepção minha de como tenho visto as reações e discursos das pessoas quanto a obras de arte, isso acontece também porque a técnica é valorizada, mas o processo artístico em si não. Então, a técnica se torna o meio de chegar no objetivo da obra parecer real, ao mesmo tempo que a obra é pensada com o objetivo de exibir a técnica que te permite fazer algo tão realista.

E aí, se a gente só dá valor ao objetivo final e o objetivo final é ser parecido com a realidade - e a maioria de nós só vai ver isso por tela mesmo - a arte* gerada por AI pode virar uma sensação. Porque ela faz o que um humano não pode fazer. Ao mesmo tempo, quando o The Futurist tuitou um robô pintando, a reação de muita gente foi de dizer: uau, parabéns, criaram uma impressora. Então, talvez, a técnica e a perfeição só importam quando estamos falando de um humano, e os valores que usamos pra se pensar produção de máquinas sejam outros. 

Então, o buraco é mais fundo. Sempre é. E, para além de se entender o que é arte, surgem outras questões, como: qual arte é mais valiosa? Por que ela é mais valiosa? É a perfeição estética que importa mais? Se um robô pode fazer o que um humano não consegue, isso torna essa arte mais interessante, porque estamos falando de coisas literalmente humanamente impossíveis? Ou a torna sem graça, porque o erro humano é o que gera o atrativo da arte? Mas e o erro robótico, como fica?

Será que a arte gerada por AI é menos interessante dado a possibilidade de sua reprodução em massa? Ou isso é visto como positivo porque possibilita maior acessibilidade da arte? Será que, no começo, obras geradas por AI, por ainda serem raras e de difícil acesso, serão coisa de rico, mas, com o tempo e a popularização dessa forma de produção artística, essas obras passarão a ser consideradas menores, ou coisa de pobre? Ou vai acontecer o fenômeno do Romero Britto? Ou seja, não será uma questão de classe social per se, mas de elite intelectual: ricos e pobres sem educação visual/ artística vão gostar das artes geradas por AI, enquanto aqueles poucos que têm educação visual/ artística nem vão considerar aquilo arte.

Como fica a questão de quem é o artista da obra gerada pelo AI? É a máquina ou a pessoa que a programou? Como fica o copyright disso? Esse, por exemplo, já é um debate no caso de máquinas que produzem arte e seus idealizadores já morreram.

E pra além de tudo isso, vem a questão da obra em si. Afinal de contas, quais obras estão sendo/ vão ser produzidas por AI? Se aquilo que inserimos no repertório do AI muda completamente o resultado do que ele gera, quais são as referências que estamos dando a essa máquina? Em um sistema artístico em que o valor é a autenticidade e a ruptura, como se inserem obras que são feitas através de um algoritmo que junta outras obras? O aprendizado do AI permitiria gerar rupturas que nós humanos não consideramos ou seria mera reprodução do que já temos? Qual é a lógica e o sistema de valores que podem ser ensinados para um AI criar uma obra de arte? É possível haver inovação? A inovação é importante, ou só dar continuidade às tradições e práticas artísticas já basta? Mas como fica quando nossa tradição é a ruptura?

E como fica a recepção dessa arte? O produto final será visto com desconfiança? Quem vai desconfiar dele?

A gente tá numa sociedade em que o acesso à arte e às discussões sobre a mesma são extremamente elitizadas. Sem educação artística na escola, já é difícil entender e acompanhar discussões sobre evolução de técnicas, conceitos, aura etc. Em uma conversa com a minha amiga Isoca, que contribuiu muito pra existência desse texto, ela disse: "é como se o entendimento sobre arte nunca acompanhasse a evolução das técnicas, por exemplo, e tivéssemos que voltar sempre ao mesmo lugar de 1. uma arte/ entretenimento aceitável, ainda que vazio, 2. uma arte 'complexa' e transformadora' que não atinge a todos". No fim, é como se estivéssemos presos eternamente nessa questão, como se só fosse possível haver uma arte/ entretenimento vazios para as massas ou uma arte profunda para as elites culturais. E não é assim que a banda toca*, mas a conversa fica tanto nisso que é fácil não desenvolver o assunto. E o problema disso é que a gente acaba hypando tanta coisa ruim simplesmente porque existe esse entendimento de que "atinge as massas" que acabamos com produções medíocres - porque, afinal de contas, o que as galerias, produtoras, canais de streaming, emissoras etc. querem mesmo é dinheiro. E enquanto estivermos consumindo* o produto final sem levar em consideração o processo, vamos continuar reféns do capital e da lógica neoliberalista de grandes empresas. Podendo chegar nesse ponto da distopia em que muitas empresas simplesmente podem parar de contratar pessoas porque a inteligência artificial já vai criar o produto que vende, toda baseada nos algoritmos das redes sociais. Enquanto, no tuíter, o povo vai estar lá defendendo filme da Marvel, sabe-se lá por quê.

No fundo, é aquela coisa: o problema raramente é a tecnologia em si, mas sim como a criamos e usamos. Em resumo, é sobre o processo. A nossa práxis, ou seja, a prática com reflexão (algo que, em geral, não fazemos). Como falei no começo desse texto, esse é um assunto que levanta milhares de questões. Aqui, só quis trazer algumas das que surgiram na minha cabeça ao ler sobre o Barack Obama Book, mas tem muito mais. No final das contas, a minha conclusão é a conclusão que tenho toda a vez que leio e pesquiso sobre tendências: a única saída possível é o fim do capitalismo. Mas isso é papo pra outro dia.


fui 🌻


*(1) será que é arte mesmo?

*(2) pelamor, a gente precisa parar de acreditar e reproduzir esse discurso dual, simplista e reducionista. Eu provavelmente ainda vou vir aqui falar mais sobre isso algum dia, porque essa é uma das coisas que vive me irritando, mas fiquem aqui com essa citação do Paulo Freire, que está na Pedagogia do Oprimido falando "parem de tratar os outros como burros! ", mas com mais palavras:

"O humanista científico revolucionário não pode, em nome da revolução, ter nos oprimidos objetos passivos de sua análise, da qual decorram prescrições que eles devam seguir.

Isto significa deixar-se cair num dos mitos da ideologia opressora, o da absolutização da ignorância, que implica a existência de alguém que a decreta a alguém.

No ato desta decretação, quem o faz, reconhecendo os outros como absolutamente ignorantes, se reconhece e à classe a que pertence como os que sabem ou nasceram para saber. Ao assim reconhecer-se tem nos outros o seu oposto. Os outros se fazem estranheza para ele. A sua passa a ser a palavra 'verdadeira', que impõe ou procura impor aos demais. E estes são sempre os oprimidos, roubados de sua palavra."

*(3) só o termo CONSUMIR pra se falar de obras de arte já é TRASH



Comentários

  1. Uau, Clara, não sabia do Barack Obama Book e fiquei impressionada com todas as questões que você conseguiu levantar a partir disso

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