Fim da picada
Não sei quando isso de spoiler se tornou o que se tornou, mas particularmente me cansa. Nada contra você pessoalmente não querer saber o final de uma obra que cê tá lendo/ assistindo, mas isso ser Uma Questão toda vez que estamos falando de histórias é cansativo, porque se a gente não pode tratar sobre o final, a gente não pode elaborar críticas completas, e daí temos que nos contentar com mais um texto sobre As Mulheres De [Qualquer Bosta]™, algo que é impossível de satisfazer de verdade qualquer pessoa que pense um pouco.
Eu não sei qual é a causa e qual é a consequência (até porque não dediquei muito tempo da minha vida refletindo sobre isso), mas é óbvio que essa cultura de "sem spoiler" está relacionada de maneira intrínseca à maneira com obras mainstream têm sido produzidas [vide Marvel escondendo dos próprios atores com quem eles deveriam estar na cena?!??! BABACAS]. E é claro que a produção afeta a recepção e a recepção afeta a produção - afinal, a vida é complexa. E o que mais me incomoda disso tudo é que, quando entramos nessa lógica do "sem spoiler", a gente para de pensar na importância do processo formal da obra e, com isso, tiramos todo o trabalho artístico envolvido no processo de criação de uma obra.
Mas pra quem acha que isso soa coisa de crítico véio branco que jovens odeiam, deixa eu dizer isso aqui também: admitir que contar o final de uma história é um "spoiler", ou seja, literalmente um ESTRAGO pra sua experiência com a obra, é admitir que toda aquela história está a serviço de seu fim, que tudo ali tem uma finalidade. Ela só existe pra acabar. A obra se torna um produto. Ela passa a existir apenas pra ser consumida, não vivida ou apreciada. Dizer que o conhecimento do fim de uma história é um estrago é dizer que tudo que se passou precisa ser útil. O que é uma visão extremamente capitalista de se encarar uma obra de arte ou entretenimento [lembrando aqui que entretenimento não é algo necessariamente capitalista, tempo de diversão e ócio são fundamentais independente do sistema sócio-econômico que vivemos!].
Tudo isso faz parte de uma jornada maior que tenho vivido há anos, que é o que agora vou intitular como RECA DA RECEPÇÃO, algo que inclusive já tratei um pouco nesse blógue ao falar sobre o uso de tropes como maneira de convencer alguém de ler um livro.
Mas POR QUE tô falando tudo isso aqui? Bom, primeiro porque é meu blógue e, como diria Miley Cyrus: it's my blog, I can reclamar if I want to. Mas também porque, na verdade, eu queria vir aqui falar de FINAIS DE LIVROS.
A gente sempre fala muito de bons começos de livros. E, como qualquer pessoa, eu também amo um bom começo. Principalmente porque não sou muito fã de ler (diz a beletrista), então um bom começo é fundamental pra me estimular a pegar o fôlego pra ler. E, claro, existem começos maravilhosos, fortíssimos, explosivos e fundamentais como o próprio big bang. Mas sinto que a gente acaba deixando um pouco de lado algo que, pra mim, tem a mesma força que um bom começo: um bom final. Aqueles últimos parágrafos que mudam a batida do seu coração e te levam pra um lugar emocional que só bons finais te dão acesso, quando você se eleva alguns palmos do chão só por causa de palavras.
Pois bem. Aqui estão alguns dos meus finais preferidos. Alguns são uma frase, outros são parágrafos inteiros. E você vai ler porque eu te convenci que isso de "sem spoiler" é idiota e capitalista, e todos nós somos inteligentes e anti-capitalistas.
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Eu sentia que a noite chegava ao fim. Qualquer coisa me dizia que me devia apressar antes que aquele sonho se extinguisse. Porque me surgiam agora alucinadas visões de uma estrada por onde eu seguia. Mas aquela era uma muita estranha picada: não estava imóvel, esperando a viagem dos homens. Ela se deslocava, seguindo de paisagem em paisagem. a estrada me descaminhou. O destino o que é senão um embriagado conduzido por um cego? Fui sendo levado sem conta nem tempo. Até que meu coração se apertou em sombrio sobressalto. Me surgiu um machimbombo queimado. Estava derreado numa berma, a dianteira espalmada de encontro a uma árvore. De repente, a cabeça me estala em surdo baque. Parecia que o mundo inteiro rebentava, fios de sangue se desalinhavam num fundo de luz muitíssimo branca. Vacilo, vencido por súbito desfalecimento. Me apetece deitar, me anichar na terra morna. Deixo cair ali a mala onde trago os cadernos. Uma voz interior me pede para que não pare. É a voz de meu pai que me dá força. Venço o torpor e prossigo ao longo da estrada. Mais adiante segue um miúdo com passo lento. Nas suas mãos estão papéis que me parecem familiares. Me aproximo e, com sobressalto, confirmo: são os meus cadernos. Então, com o peito sufocado, chamo: Gaspar! E o menino estremece como se nascesse por uma segunda vez. De sua mão tombam os cadernos. Movidas por um vento que nascia não do ar mas do próprio chão, as folhas se espalham pela estrada. Então, as letras, uma por uma, se vão convertendo em grãos de areia e, aos poucos, todos meus escritos se vão transformando em páginas de terra.
COUTO, Mia. Terra Sonâmbula
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Ele parou de falar e se remexeu. "Ifem, vou correr atrás de você. Vou correr atrás de você até dar uma chance a isso."
Ifemelu ficou um bom tempo olhando para Obinze. Ele estava dizendo o que ela queria ouvir, mas ela continuava apenas olhando para ele.
"Teto", disse, finalmente. "Entre."
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. Americanah
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O que nela se elevava não era a coragem, ela era substância apenas, menos do que humana, como poderia ser herói e desejar vencer as coisas? Não era mulher, ela existia e o que havia dentro dela eram movimentos erguendo-a sempre em transição. Talvez tivesse alguma vez modificado com sua força selvagem o ar ao seu redor e ninguém nunca o perceberia, talvez tivesse inventado com sua respiração uma nova matéria e não o sabia, apenas sentia o que jamais sua pequena cabeça de mulher poderia compreender. Tropas de quentes pensamentos brotavam e alastravam-se pelo seu corpo assustado e o que neles valia é que encobriam um impulso vital, o que neles valia é que no instante mesmo de seu nascimento havia a substância cega e verdadeira criando-se, erguendo-se, salientando como uma bolha de ar a superfície da água, quase rompendo-a... Ela notou que ainda não adormecera, pensou que ainda haveria de estalar em fogo aberto. Que terminaria uma vez a longa gestação da infância e de sua dolorosa imaturidade rebentaria seu próprio ser, enfim enfim livre! Não, não, nenhum Deus, quero estar só. E um dia virá, sim, um dia virá em mim a capacidade tão vermelha e afirmativa quanto clara e suave, um dia o que eu fizer será cegamente seguramente inconscientemente , pisando em mim, na minha verdade, tão integralmente lançada no que fizer que serei incapaz de falar, sobretudo um dia virá em que todo meu movimento será criação, nascimento, eu romperei todos os nãos que existem dentro de mim, provarei a mim mesma que nada há a temer, que tudo o que eu for será sempre onde haja uma mulher com meu princípio, erguerei dentro de mim o que sou um dia, a um gesto meu minhas vagas se levantarão poderosas, água pura submergindo a dúvida, a consciência, eu serei forte como a alma de um animal e quando eu falar serão palavras não pensadas e lentas, não levemente sentidas, não cheias de vontade de humanidade, não o passado corroendo o futuro! não haverá nenhum espaço dentro de mim para eu saber que existem o tempo, os homens, as dimensões, não haverá nenhum espaço dentro de mim para notar sequer que estarei criando instante por instante, não instante por instante: sempre fundindo, porque então viverei, só então viverei maior do que na infância, serei brutal e malfeita como uma pedra, serei leve e vaga como o que se sente e não se entende, me ultrapassarei em ondas, ah, Deus, e que tudo que venha e caia sobre mim, até a incompreensão de mim mesma em certos momentos brancos porque basta me cumprir e então nada impedirá meu caminho até a morte-sem-medo, de qualquer luta ou descanso me levantarei forte e bela como um cavalo novo.
LISPECTOR, Clarice. Perto do Coração Selvagem
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The future happens. It keeps happening.
The man is still alive, but the boy is gone. The light is out.
His light is out yet it shines triumphant from the next of the living, and when their time is up, their potential spent, the light will move along to the nest brightest, and the next.
A flash - and I'm gone, but look, the churn of bodies through the world of light unending.
Look, here we are, even now-
MANGUSO, Sarah. Ongoingness: the end of a diary
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[…] Desde que a viagem à ilha desconhecida começou que não se vê o homem do leme comer, deve ser porque está a sonhar, apenas a sonhar, e se no sonho lhe apetece um pedaço de pão ou uma maçã, seria um puro invento, nada mais. As raízes das árvores já estão penetrando no cavername, não tarda que estas velas içadas deixem de ser precisas, bastará que o vento sopre nas copas e vá encaminhando a caravela ao seu destino. É uma floresta que navega e se balanceia sobre as ondas, uma floresta onde, sem saber-se como, começaram a cantar pássaros, deviam estar escondidos por aí e de repente decidiram sair à luz, talvez porque a seara já esteja madura e é preciso ceifá-la. Então o homem trancou a roda do leme e desceu ao campo com a foice na mão, e foi quando tinha cortado as primeiras espigas que viu uma sombra ao lado da sua sombra. Acordou abraçado à mulher da limpeza, e ela a ele, confundidos os corpos, confundidos os beliches, que não se sabe se este é o de bombordo ou o de estibordo. Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. Pela hora do meio-dia, com a maré, A Ilha Desconhecida fez-se enfim ao mar, à procura de si mesma.
SARAMAGO, José. O conto da Ilha Desconhecida
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240. All right then, let me try to rephrase. When I was alive, I aimed to be a student not of longing but of light.
NELSON, Maggie. Bluets
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O mundo independia de mim – esta era a confiança a que eu tinha chegado: o mundo independia de mim, e não estou entendendo o que estou dizendo, nunca! nunca mais compreenderei o que eu disser. Pois como poderia eu dizer sem que a palavra mentisse por mim? como poderei dizer se não timidamente assim: a vida me é. A vida se me é, e eu não entendo o que digo. E então adoro. – – – – – –
LISPECTOR, Clarice. A Paixão Segundo G. H.
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Em nenhum ato de sua vida Aureliano foi mais lúcido do que quando esqueceu os mortos e a dor de seus mortos e tornou a pregar as portas e as janelas com as cruzetas de Fernanda para não se deixar perturbar por nenhuma tentação do mundo, porque então sabia que nos pergaminhos de Melquíades estava escrito o seu destino. Encontrou-os intactos, entre as plantas pré-históricas e os charcos fumegantes e os insetos luminosos que haviam desterrado do quarto qualquer vestígio da passagem dos homens pela terra, e não teve serenidade para levá-los até a luz, mas ali mesmo, de pé, sem a menor dificuldade, como se tivessem sido escritos em castelhano debaixo do resplendor deslumbrante do meio-dia, começou a decifrá-los em voz alta. Era a história da família, escrita por Melquíades nos seus detalhes mais triviais, com cem anos de antecipação. Tinha redigido em sânscrito, que era sua língua materna, e havia cifrado os versos pares com os códigos pessoais do imperador Augusto, e os ímpares com códigos militares da Lacedemônia. A chave final, que Aureliano começava a vislumbrar quando se deixou confundir pelo amor de Amaranta Úrsula, tinha sua raiz no fato de Melquíades não ter ordenado os fatos no tempo convencional dos homens, mas concentrado um século de episódios cotidianos, de maneira que todos coexistissem num mesmo instante. Fascinado pelo achado, Aureliano leu em voz alta, sem saltos, as encíclicas cantadas que o próprio Melquíades fizera Arcádio escutar, e que na realidade eram as predições de sua execução, e encontrou anunciado o nascimento da mulher mais bela do mundo que estava subindo aos céus de corpo e alma, e conheceu a origem dos gêmeos póstumos que renunciavam a decifrar os pergaminhos, não apenas por incapacidade e inconstância, mas porque suas tentativas eram prematuras. Neste ponto, impaciente por conhecer sua própria origem, Aureliano deu um salto. Então começou o vento, morno, incipiente, cheio de vozes do passado, de murmúrios de gerânios antigos, de suspiros de desenganos anteriores às nostalgias mais tenazes. Não o percebeu, porque naquele momento estava descobrindo os primeiros indícios de seu ser num avô concupiscente que se deixava arrastar pela frivolidade através de um páramo alucinado, à procura de uma mulher formosa que ele faria feliz. Aureliano reconheceu-o, perseguiu os caminhos ocultos de sua descendência, e encontrou o instante de sua própria concepção entre os escorpiões e as borboletas amarelas de um banheiro crepuscular, onde um peão de oficina saciava sua luxúria com uma mulher que se entregava a ele por rebeldia. Estava tão absorto, que tampouco sentiu a segunda arremetida do vento, cuja potência ciclônica arrancou as portas e as janelas dos umbrais, destroçou o telhado da varanda oriental e desenraizou os alicerces. Só então descobriu que Amaranta Úrsula não era sua irmã e sim sua tia, e que Francis Drake tinha assaltado Riohacha somente para que eles pudessem se buscar pelos labirintos mais intrincados do sangue, até engendrarem o animal mitológico que haveria de pôr fim à estirpe. Macondo já era um pavoroso redemoinho de poeira e escombros centrifugados pela cólera do furacão bíblico quando Aureliano pulou onze páginas para não perder tempo em fatos demasiado conhecidos e começou a decifrar o instante que estava vivendo, decifrando conforme bibia esse instante, profetizando a si mesmo no ato de decifrar a última página dos pergaminhos, como se estivesse se vendo num espelho falado. Então deu outro salto para se antecipar às predições e averiguar a data e as circunstâncias de sua morte. Porém, antes de chegar ao verso final, já havia compreendido que não sairia jamais daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada de memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo que estava escrito neles era irrepetível desde sempre e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra.
MÁRQUEZ, Gabriel García. Cem Anos de Solidão.
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Queria ter colocado também o fim de O Menino no Espelho, do Fernando Sabino, mas não encontrei entre as estantes daqui de casa, mas fica a menção honrosa, porque é realmente um final muito, muito lindo. Aliás, vendo esses finais todos assim juntinhos me ajuda a entender melhor meu gosto literário.
Mas me conta de você. Quais são alguns dos seus finais preferidos?
O único começo ruim que eu consegui encarar até hoje foi o das temporadas audiodescritas de doctor who e não me arrependo.
ResponderExcluirEsse negócio de spoiler não faz sentido pra mim. Cresci com minha mãe e tias conversando sobre os detalhes dos próximos capítulos das novelas da globo que alguma revista deixou escapar sem querer querendo. Saber o que acontece não é saber como acontece, e mesmo saber como acontece pelo que alguém me diz não é saber como acontece no livro, escrito pelo autor.
A vida é muito curta pra se ter medinho de spoiler.
ResponderExcluirEu curto o final de O Enigma da Casa de Vidro, do Ganymedes José, mas eu to com ele longe pra quotar :(