Pensando n'Ele

Mesmo depois de um ano e meio, eu ainda penso n'Ele: o Padre Gato. Maior que deus e mais humilde que o mesmo, o Padre Gato não é um personagem qualquer, ele é um fenômeno. (Perdendo apenas para o ator Jo Jung-Suk, o fenômeno dos fenômenos, mas isso é outra história.) 

Admito: não entendia por que tantos falavam do Padre Gato. Na época, não tinha conseguido ver nem o primeiro episódio da primeira temporada inteiro de Fleabag, e vi fotos do que alegavam ser o Padre Gato e pensava: mas... ele não é gato... Até que aconteceu. Eu vi a segunda temporada e fui destruída por Ele, o Padre Gato.

Muitos podem achar que o apelo do Padre Gato é o fato de aquele ser um amor impossível, mas eu digo aqui com tranquilidade: todas essas pessoas estão erradas. 

O Padre Gato é objetivamente gostoso? Sim. Tira a cabeça e deixa o corpo e você verá um homem gostoso. 

O Padre Gato é objetivamente ridículo comprando roupas de padre e sendo perseguido por raposas? Sim. E eu o amo por isso.

Mas isso ainda não é o suficiente.

O primeiro grande apelo do Padre Gato é ele ser um padre alcoólatra. Sim, isso mesmo, todo mundo gosta de lixo. É que nem o Benny, de O Gambito da Rainha, você olha praquele caubói ridículo e fala em voz alta AH PRONTO O LIXO QUE EU GOSTO. Mas, diferente do Benny, o Padre Gato é alguém que te cozinha devagar, em fogo baixo. Ele tá ali te olhando e sendo gato e confuso e algo vai crescendo dentro de você.

O alcoolismo é fundamental pra gatitude do nosso Padre. Isso se dá porque pontua um traço muito importante da personalidade dele, que é o que define sua relação com a flibég: o Padre Gato tem problemas com escapismo. Ser alcoólatra é o que demonstra isso. Ele não aguenta a realidade, ele precisa fugir do mundo e, por isso, ele bebe. Mas ele não é apenas um alcoólatra, ele é um padre alcoólatra - e, como falei pra vocês, o grande apelo dele é este.

Alcoolismo por alcoolismo não é apelativo em personagens. Inclusive, muitas vezes o alcoolismo é o que nos faz não gostar de muitos personagens. Nós não chamamos o Padre Gato de Alcoólatra Gato. Ele é Padre. E isso muda tudo não porque faz uma relação romântica-sexual impossível, mas sim porque se tornar padre é a forma que esse personagem encontrou de lidar com seu escapismo. Sua fé é a forma de se manter em contato com a realidade e, assim, conectado aos outros.

Então, ok, temos esse personagem que é: atencioso, escapista, complexo - ou seja, pisciano -, e ele saca a flibég e a flibég saca ele. E ela fica tão bolada que gasta o voucher de sessão de terapia que ganhou do pai (kkkkk) e admite: eu quero foder um padre.

Mas... Você quer foder um padre ou você quer foder deus? Ficaí a reflexão, diz a terapeuta.

Sim, eu sou uma mulher com complexo de deus. Eu sou escritora, pelamor, é claro que tenho complexo de deus. Eu amo pensar em criação como poder e a divindade como a junção perfeita dos campos das artes e das ciências. E, sim, depois que eu senti atração sexual pela primeira vez eu percebi que, se fosse alossexual, eu poderia ter derrotado Deus (o judaico-cristão, que é o que precisa ser derrotado) (deixem os orixás em paz). Então, sim, é claro que quando a terapeuta vira pra flibég e pergunta se ela quer foder um padre ou deus, eu Senti.

Eu não vi a primeira temporada de Fleabag pra ter um argumento tão forte quanto poderia, talvez a Anna Vitória pudesse ajudar, mas não vou ligar pra ela pra isso. Mas mesmo só com a segunda temporada, é fácil de entender que a flibég tem sérios problemas com a aleatoriedade da vida. Ela não se conforma com os acontecimentos da vida dela, ela se sente impotente e tenta reclamar seu poder através da desconexão humana, uma forma de tentar dizer que a vida e o caos (que, na pergunta da terapeuta, são colocados como deus) não a afetam. Mas a gente sabe que não é bem assim. 

Sabe quem mais sabe disso? O PADRE GATO.

Então, sim, claro, muita gente pode achar que o grande apelo da relação do Padre Gato com a flibég é que eles vivem um amor impossível, dado que o cara é um padre, mas isso é um olhar desatento. O que é matador na relação deles é que o Padre Gato percebe o que ninguém mais na série aparenta perceber.

Materialmente, isso significa a interação da flibég com a câmera. Mas essa interação nada mais é do que a recusa da flibég de se conectar com as pessoas em volta dela. Ao recorrer sempre a esse terceiro elemento que só ela aparenta perceber, a flibég escolhe se isolar dos outros e de sua realidade (tanto no sentido da realidade que ela é ficcional vivendo dentro de uma série, quanto no sentido das relações que estão sendo produzidas e que ela constantemente quebra ao escolher interagir com a câmera em vez de com os outros personagens, que estão ao redor dela, criando a realidade em que ela vive).

Então, o Padre Gato percebe a desconexão da flibég. E ele não aceita que ela aja assim.

Ele é o único personagem na série que admitidamente percebe que ela olha pra câmera e entende que aquilo é a forma dela de escapismo e desconexão da realidade. E ele é o único que não aceita que ela faça isso. Ele exige que ela se explique, manda ela parar, ele também procura o lugar pra onde ela tá olhando, com quem ela tá interagindo que não é ele ou as outras pessoas ao redor deles. 

Ele tá dizendo: eu sei o que cê tá fazendo e não aceito esse mecanismo de defesa, porque sei que, no fundo, eles só machucam você e os outros. E ele de fato sabe, porque ele, assim como ela, também sofre com isso. Ele também quer escapar. Mas ele escolhe se manter na realidade, foi por isso que ele virou padre, é por isso que ele vai continuar sendo padre mesmo que ele ame e sinta tesão pela flibég - porque ela bagunçou a vida dele, ela fez ele se deparar com uma forma diferente de ver o mundo, colocou o que ele conhecia em dúvida e ele gostou disso. O Padre Gato sabe o que é se desconectar, sabe as consequências disso e, porque ele sabe e porque ele gosta da flibég, ele não aceita que ela faça isso. Ele exige que ela crie conexões.

E é nessa exigência dele - que não é direta e mandatória, mas sim através desse pedido de explicações, de buscar junto com ela, quase que dizendo: "se você quer escapar, você vai ter que me levar junto", porque ele aprendeu a voltar pra realidade, ele sabe discernir o que é real e o que não é, o que não parece real mas é (as raposas o perseguindo) e o que parece real mas não é (acreditar que se desconectar emocionalmente vai fazer com que cê se sinta melhor).

Quando ele escolhe continuar sendo padre, ele tá dizendo: eu escolho a realidade e a conexão humana, espero que você também escolha o mesmo. 

A relação da flibég com o Padre Gato é uma relação em que o mais importante é exatamente isso: se relacionar. É ambos terem que encarar o medo que eles têm da conexão humana. É a escolha da realidade.

E é por isso que ele é gato.

🌻 fui 🌻

Comentários

  1. Dia desses reassisti a segunda temporada de Fleabag só porque tava com muita saudade da interação dela com o Padre Gato e fiquei pensando se parte da graça da dinâmica dos dois não vinha exatamente desse lugar de semelhança. A AV comentou no twitter que ele era um Homem Que EscutaTM e que parte do charme entre os dois era isso, e é claro que eu concordo com ela, mas concordo especialmente com você quando você diz que o charme é ele reconhecer o lugar que a Fleabag ocupa e se recusar a ocupar esse mesmo lugar.

    Acho que a Fleabag carrega também uma culpa insuportável por sentir, ao mesmo tempo, uma vontade terrível de pertencer e se conectar e um medo ainda maior de que ao fazer isso ela se coloque em uma posição de extrema vulnerabilidade e se machuque ou machuque os outros. O monólogo dela no confessionário falando que queria que alguém decidisse tudo por ela porque assim ela saberia o que fazer é uma coisa que me toca demais porque é ao mesmo tempo um pedido de ajuda e uma recusa da necessidade de ajuda: se alguém de dita as regras, você não precisa se questionar sobre nada, você dá conta sozinho, as regras estão ditas, basta seguir. E pronto. Mas a necessidade das regras impõe essa incapacidade de ir lá e fazer sozinho, né? E aí o Padre Gato aparece e diz "ok, vou te ditar as regras", mas sem entrar no jogo. Porque é isso. Ele pode dizer "isto é uma conexão, é assim que é amar uma pessoa, FAÇA ISSO", mas ele não pode efetivamente entrar no jogo – porque a escolha dele é outra conexão (talvez uma conexão mais absoluta? com o perdão da piada). E ela faz. E eventualmente o jogo acaba. E aí, bom, "it will pass" – aquela porradinha final pra lembrar que parte de estar vulnerável é aquele sofrimento, mas que ele é um sofrimento que é mais confortável do que o peso e a culpa de antes.

    Enfim. YOUR MIND!!!!!, sabe? Tudo.

    (Talvez te interesse saber que li esse post enquanto tocava Satisfied.)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Acho que daí entra na questão de que a flibég é claramente absolute nightmare e o padre gato é sweaterboy cuspido e escarrado. E, falando como absolute nightmare também, o grande problema é que existe sempre esse medo de que você não pode confiar nos discursos que existem, porque você sabe que eles não se aplicam a você, porque não é isso que você quer, por mais que você também busque suas formas de conexões. Então o desejo de querer alguém que te diga o que fazer é ao mesmo tempo tudo o que você deseja e tudo o que você nunca vai aceitar.
      Pra mim, quando o Padre Gato diz pra ela ajoelhar e ela demora um tempo pra conseguir fazer, tem esse momento de que ela não sabe e nem quer seguir ordens, mas como ela já tá vulnerável mesmo, ela decide tentar. Só que no momento seguinte, quando eles se pegam, ela já tá fazendo o que ela quer de qualquer forma. Existem muitas outras questões nessa cena relacionadas à vulnerabilidade, poder e erotismo, mas daí ia ser outro texto kkkkk.
      Tudo o que cê falou faz bastante sentido, mas discordo sobre ser um jogo (já que você tava ouvindo Satisfied, esse é o momento que entra o coro: THIS IS NOT A GAME hehehehe). Os dois estão profundamente vulneráveis e agindo nos desejos deles. Quando o Padre Gato decide continuar sendo padre (o que é depois de ele ter uma crise enorme!!!!), ele tá escolhendo o desejo de se manter conectado com a realidade e com o mundo. Se ele escolhesse a flibég, ele escolheria se conectar com ela, mas só com ela e, por mais que ele claramente a ame, a realidade e a comunidade são mais importantes.
      Acho que quando ele fala pra ela que vai passar é um pouco essa noção de que as conexões que temos com uma ou outra pessoa específica podem se desfazer, mas vamos sempre gerar outras conexões e aprendemos a ficar bem com isso.
      Faz sentido? Tô pensando tudo meio agora também kkkkk

      (eu AMEI saber que você leu o texto enquanto tocava Satisfied!!!)

      Excluir
  2. Quando eu assisti, criei a teoria de que a quebra de quarta parede da Fleabag é uma espécie de oração, um pedido de socorro divino e nós, os espectadores, seríamos esse ser que ela pede ajuda, e o Padre Gato seria o único a perceber porque ele é religioso

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Também acho que é um pedido de socorro! Mas uma oração já é algo muito religioso pra mim, uma atéia hahahahaha
      Faz sentido a sua leitura! Mas acho que daí meio que qualquer figura religiosa a entenderia? E o que acho interessante da relação deles é que é /ele/, sabe? Não é qualquer padre, qualquer freira, é um padre alcoólatra que escolheu a fé como seu escapismo e sua conexão com a realidade ao mesmo tempo.

      Excluir
  3. Que análise maravilhosa. Sdds flibég e padre gato. Vou rever. :)

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Referências bibliográficas: os 11 (onze) livros que estou "lendo"

maior que um tuíte, menor que um artigo

Referências bibliográficas: os 09 (nove) livros que estou "lendo"