O autor está morto e eu o invoquei
Eram onze e meia da noite outro dia quando pensei: epa, talvez o problema seja que as pessoas não entendem o que significa quando alguém diz que o autor tá morto. Então fiz o que faço num momento como esse: passei meia hora mandando mensagem sobre o assunto pra minha amiga, que estava dormindo. As mensagens começaram bem, analíticas, tentando conectar os pontos, mas depois de meia hora digitando no celular as coisas desandam um pouco, com mensagens como "PAAAAA!!! Problematizeri" [sic] e alguns xingamentos, é verdade. Mas, ainda assim, no fim de tudo, eu disse que ia fazer um luigi board ou jogo do copo pra invocar o Barthes e escrever um novo artigo, que se chamaria O AUTOR ESTÁ MORTO E EU O INVOQUEI. Eu não invoquei o Barthes de verdade, porque não mexo com isso de espírito. E nem vou escrever um Artigo, porque não me odeio. Mas o texto tá aqui de qualquer forma:
Talvez o problema seja que as pessoas não entendem o que significa quando alguém diz que o autor tá morto. Dizer que o autor está morto não quer dizer que o autor não existe; da mesma forma que quando Nietzsche falou que Deus está morto, ele não disse que Deus não existia. É que o autor (e Deus) não importa. E, talvez, o problema seja que as pessoas não entendam as consequências disso.
A consequência da morte do autor não é parar de pensar aquela obra na sociedade, como se ela não pudesse ser impactada pela cultura que a cerca e vice versa, muito pelo contrário: é ver a arte como reflexo profundo da sociedade - seja este conivente ou crítico - e entender que isso vai estar na obra de alguma maneira. É parar de achar que tudo que tá escrito ali é vivência do autor e principalmente: parar de achar que o autor tem soberania sob o seu texto. Ele não tem.
Uma pessoa não deve ser soberana nem num país nem num texto. Matamos o autor para que possamos olhar pra obra e entender o que raios tá realmente sendo dito ali, sem as firulas e papagaiadas extra de quem escreveu. Parar pra entender quais recursos estão sendo usados nos ajuda a entender o que está de fato sendo falado. Analisar palavra por palavra, frase por frase, de qual forma aquela obra reflete a sociedade que a concebe e recebe. O que tá realmente sendo dito ali? É uma crítica à sociedade? Ou é conivente a ela? E, mais importante ao quê a obra é crítica e ao quê é conivente?
O autor sempre vai ter suas opiniões sobre a própria obra, mas quando matamos o autor estamos dizendo: foda-se suas opiniões. O autor pode achar que mandou bem, mas não importa o que ele acha, só importa o que tá escrito. Também não importa o que você quer que esteja escrito. A análise tem que ser embasada. Mas, como disse uma vez uma professora de Análise do Discurso, se você sentiu algo esquisito, provavelmente é porque tem algo esquisito. E, daí, o lance é focar no escrito, não na vida do bróder que o escreveu. Porque sentidos são produzidos através da materialização do texto. A fala, as imagens, as palavras, os sons. São essas coisas que produzem o discurso. Então, quais palavras foram utilizadas? Quais imagens? No que elas implicam? A morte do autor é sobre parar de considerar os tuítes da r*wlling e ler o que tá nos livros (uma história heteronormativa de bruxos brancos e racistas, com um narrador xenofóbico, transfóbico, antisemita etc.).
Nesse sentido, se perguntar quem é o autor, por quê, pra quê e pra quem ele produziu sua obra é parte do processo de sua morte. Entender qual o papel social de quem escreve ajuda a entender o viés do que tá sendo dito e, assim, permite sermos mais espertos na hora de ler aquele texto e sacarmos rapidamente as escolhas de palavras, de narrador, de gênero literário, bom, da forma de uma maneira geral. Porque é claro que a obra não foi concebida por geração espontânea, é claro que teve alguém que sentou e criou tudo que tá ali e é claro que suas visões de mundo transparecem na obra final. O autor existe. Matá-lo é ignorar o que ele acha que escreveu e parar de olhar pra vida pessoal dele pra justificar sua obra. É, em vez disso, se perguntar: o que de fato essa obra tá dizendo? Porque é isso que importa. O autor morre. A obra fica. É ela que importa. Como diria Barthes, não com essas palavras: pau no cu do autor.
Agora... Eu entendo e compartilho do dilema de o que fazer com obras que gostamos de pessoas vivas que não gostamos. Porque consumir essas obras significa dar dinheiro e influência a essas pessoas. Essa também é uma questão que me pergunto com frequência e é um conflito com o qual tenho que conviver*. Porque a real é que a pessoa ser babaca ou bacana não muda necessariamente o valor da obra em si (que pode ser boa, ruim ou mediana) (não tô aqui dizendo que o último filme do Woody Allen é bom, eu nem vi o último filme dele) (mas também não vou defender a obra da Rupi Kaur, cês me respeitem). A real é que conflitos desse tipo só deixam a arte, como um todo, mais complexa. E isso pode ser interessante se a obra é bem feita (bom exemplo: Mulherzinhas, da Greta) ou desinteressante se mal feita (bom mau exemplo: Cor*nga).
Talvez seja mais fácil no caso de autores mortos - ainda mais se a obra tá no domínio público. Porque, daí, é só ler a obra criticamente. Com leitor vivo é mais complicado porque outras questões entram em jogo, e aí a conversa se torna sobre espaço e poder, o que é um assunto pra outro dia quem sabe, me paguem uma cervejinha antes. Mas com autores mortos talvez seja um pouco mais simples dado que não envolve dinheiro. Porque é aquela coisa: não dê Monteiro Lobato pras crianças lerem. Entrega isso pra quem já tá mais velho e tem a capacidade de fazer uma leitura crítica da obra, podendo debater os pontos problemáticos e violentos e, assim, também ter consciência da nossa história, porque saber de onde viemos é importante. Ler coisas que discordamos e que faz parte da nossa história é importante pra gente aprender a pensar*.
O que me parece é que existe uma confusão de ideias e conceitos. Quem encrenca com a noção da morte do autor, em geral, é a favor da morte do autor, porque são pessoas que buscam ler a obra como reflexo da sociedade. A disputa verdadeira é a disputa do cânone: quem queremos lembrar e quem queremos que caia no esquecimento, quem queremos que nos influencie e quem queremos nunca mais ver as ideias tortas, quem acreditamos que merece espaço e que tenha a voz amplificada e quem acreditamos que deve perder espaço e ter a voz diminuída. Mas isso, internautas, é outra conversa.
O autor está morto. O autor não importa. E o recado que eu gostaria de dar pra sociedade como um todo é: discutir literatura pode ser bacana, mas vamos ler Antonio Candido antes de começar a discussão.
fui 🌻
*um dia falo disso por aqui
* tenho muito a dizer sobre isso, mas fica pra outro dia
Amiga do céu, que texto inteligente!!! Nessas horas queria ser formada em letras HAHAHAHAHAHAHA
ResponderExcluiré muito tempo reclamando disso no privê, amiga kkkkkkk
ExcluirGosto de pensar que Barthes leria esse texto hoje e pensaria PUTS PAU NO CU DO AUTOR DEMAIS!!!!!!
ResponderExcluirAi, Clara, que prazer ler você em um espaço que é maior que um tuíte, porque suas ideias são ótimas e não merecem mesmo a estrutura de um fio. Lido com o dilema do autor bosta com obra legal de uma maneira pouco apropriada (pirateio a obra), mas de fato é mais fácil lidar só com quem já morreu. É por isso que todos os autores que estudo são velhinhos malucos recém-falecidos.
Beijinhos.
Amém pra esse texto e pau no cu do autor. ❤️
ResponderExcluirEu leio um texto desse e penso: pq não fiz letras?
ResponderExcluirAi leio um texto e penso: ah foi por isso!
Pensar é muito cansativo, e eu gosto de ler só para falar mal dos livros, mas adorei seus pontos.
Pau no cu do autor é a frase mais icônica que li essa semana.
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