TOMEI ZOLPIDEM E TRADUZI HAMILTON! [NÃO É CLICKBAIT]
Bom, galerinha, nesse ponto da nossa relação vocês já sabem ou deviam saber as duas coisas mais importantes sobre mim: eu sou doida e eu não sei me divertir. Então, assim, é isso que cês precisam ter em mente durante esse post todo. Porque acontece que eu traduzi Hamilton. Eu não ia fazer isso, porque é obviamente loucura. Mas até aí, como disse, eu sou doida.
Quem plantou essa sementinha na minha cabeça foi minha amiga Xoica, que sugeriu muito ingenuamente que eu e outras duas amigas nossas traduzíssemos o musical, mas a gente riu na cara dela porque esse é um trabalho insano. Acontece que, nesse dia, no metrô pra casa, eu tava ouvindo Room Where It Happens e na parte que cantam "My God! In God we trust!", eu pensei "Meu Deus! Deus no comando!" e achei isso muito engraçado. E, sei lá, eu não preciso de muito pra fazer algo extremamente ambicioso além de dar uma risadinha. Porque, como disse, eu não sei me divertir.
Mas, tipo... Até aí tudo bem. O lance é que isso ficou na minha cabeça e eu já não sei mais se foi na mesma noite ou em algum dia depois, mas algum dia ainda no começo de 2019 eu tomei meu zolpidem antes de dormir, mas antes de cair no sono, eu pensei: po, e se eu tentasse traduzir uma música de Hamilton? E, sob efeito de zolpidem, sentei no meu computador, abri a letra de "Meet Me Inside" (Na Minha Sala) e traduzi.
A ideia de tentar "Meet Me Inside" é que era uma música que, de alguma forma, me pareceu a mais fácil na hora. Era mais curta, com falas, não tinha tantos versos que são repetidos ao longo do musical, sei lá. Eu tava chapada de zolpidem. E, no dia seguinte, acordei tendo esquecido completamente do que tinha acontecido. Até que abri meu computador e vi o doc aberto e tava escrito assim: "cê tem toda razão, John tinha que ter metido a bala no cu" e eu ri tanto que só decidi continuar e tentar outra música. E daí mais uma. E mais uma. Até que de repente eu decidi que ia traduzir mesmo, afinal se traduzi, sei lá, 10 músicas, por que não traduzir logo as 46? Me pareceu a opção mais lógica.
Então, foi isso que aconteceu. Passei meses e meses traduzindo essas músicas. Até que acabou.
Eu estava chapada de zolpidem durante todo esse processo? Não. Até porque sou doida, mas não sou completamente insana e/ ou autodestrutiva. Mas admito que tava chapada de zolpi enquanto traduzia muitas músicas. De verdade. Alguns exemplos são: Meet Me Inside, Satisfied, Helpless e Blow Us All Away. Mas mesmo depois de traduzir tudo chapada de zolpi, depois, quando estava sóbria, sempre dava uma ajeitada. Afinal de contas, não dava pra deixar na versão final "helpless" como "me mijando". Apesar de que, até hoje, acredito que esse seja o termo que melhor traduz o sentimento da Eliza.
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FAQ:
Você fez isso mesmo?!?!?!
Sim.
Como?!?!?!!?!?!
Eu tava desempregada e sou usuária de zolpidem.
Como você teve coragem?!?!?!
Nada é uma questão de coragem, gente; tudo é uma questão de cara de pau. Isso é uma lição pra vida.
Foi difícil?
Foi. Mas, honestamente, foi mais divertido do que difícil. Acho que a Ideia De Traduzir é mais difícil do que sentar e traduzir de fato. E isso digo num geral, principalmente pra textos difíceis. O segredo é começar. Não importa muito por onde, só começa. Deus ou loucura no comando!
Tá na métrica?
Sim. Eu contei sílaba a sílaba cada verso. É menos consistente do que eu esperava!
Também usei tanto a gravação com o elenco quanto a só instrumental pra ir cantando junto e ver se tava dando certo. Também mandei todas as versões traduzidas cantadas pra algumas amigas que, coitadas, foram obrigadas a me ouvir cantando as 46 músicas. Pra registro, não, eu não canto bem, mas tentei compensar fazendo vozes diferentes e engraçadas pra cada personagem. Minhas amigas me disseram que gostaram, mas não sei se elas mentiram pra mim.
Quanto tempo demorou pra traduzir tudo?
A primeira versão, que não tava na métrica, demorou 3 meses pra que eu traduzisse todas as músicas. Depois disso, deixei uns outros 3 meses descansando antes de repegar. Nessa segunda fase, eu já tava bem melhor de rima e aliteração, então revisei todas as músicas desenvolvendo esses pontos, ajeitando algumas coisas que pareciam esquisitas ou que não estava 100% convencida e também me atentando a detalhes do original que tinha perdido na primeira fase. Isso demorou uns 5 meses. Depois disso, deixei descansando mais uns meses. E daí foram mais uns 2 meses mais ou menos pra colocar tudo na métrica certinho.
Eu não sabia que ia fazer assim em fases. Nem que ia demorar tanto tempo. Eu fui fazendo porque estava divertido. Depois, porque chegou um ponto que, se eu já cheguei até aqui, agora eu termino.
Qual o tamanho de tudo isso?
163 páginas no word. Espaçamento simples.
Você traduziu seguindo alguma ordem?
Não exatamente.
No começo, me guiei principalmente pelas que me pareciam mais fáceis, que não tinham tanta referência a outras músicas (o que foi bem difícil, na real) e que eu sentia que dava pra encarar. Duas das músicas que mais evitei no começo foram "My Shot" (Minha Bala) e "Satisfied" (Satisfeitos), as quais considerava e ainda considero pontos nevrálgicos pra todo o resto do musical. Acontece que chegou uma hora que precisei me defrontar com as duas.
Ambas foram bem difíceis de traduzir, vou comentar delas mais pra frente, mas o ponto é que, depois que rascunhei a primeira versão de cada uma delas, foi muito mais fácil traduzir o resto. Tipo, muito mais fácil MESMO.
Nessa primeira fase de tradução, eu também ia e voltava muito nas músicas. Então, tipo, fiz uma primeira versão de Satisfied. Daí voltei pra Helpless. Daí voltei pra, sei lá, Alexander Hamilton, nisso melhorei algo que estava em Satisfied, então voltei pra Satisfied. Daí me dei conta de uma rima em Aaron Burr, Sir e fui mexer lá. Então parti pra uma música nova. Daí voltei pra sei lá qual, e assim por diante.
Na segunda fase, também passei pelo mesmo processo, mas numa versão um pouco menos caótica. Eu também tinha uma lista com todos os títulos marcados que era o que me guiava pra eu saber o que tinha feito o que ainda faltava.
A terceira fase foi a única que fiz seguindo a ordem das músicas no musical, porque daí era basicamente ficar contando sílaba. Uma ou outra vez deixei fui e voltei em uma em que tive mais dificuldade de ajustar a métrica, mas segui bem a ordem.
Qual foi a música mais difícil de traduzir?
Eu apanhei muito em todas que eram mais melódicas, especialmente as da Eliza. Acho que uma das piores foi "That Would Be Enough" (Isso Bastaria), porque me meti nela logo no comecinho, então ainda não tava calibrada e fui pega de surpresa descobrindo que, cacete, a Eliza canta rápido pra cacete. Inclusive, o verso dela em "Alexander Hamilton" foi o que mais apanhei nessa música. Essa foi a segunda que traduzi. Outra que apanhei pra cacete foi "What'd I Miss?" (Perdi O Quê?).
Curiosamente, os raps foram mais de boa.
O que você vai fazer com isso?
Dizer na internet que traduzi Hamilton, dã. Mas, assim, se você for alguém envolvide com teatro musical e/ ou produção e tiver interesse, entra em contato comigo! Vamos conversar sobre uma parceria! Estou interessadíssima!
Você vai traduzir outros musicais?
Se me pagarem, eu traduzo o que vocês quiserem. Me contratem!
Qual sua música preferida?
Satisfied. E, sim, minha personagem preferida é a Angélica.
Você não odeia estadunidenses?
Odeio.
E traduziu Hamilton?
Traduzi.
Você acha que faz sentido traduzir/ montar Hamilton no Brasil?
Uma das coisas que fiz questão de pensar durante a minha tradução - não só por questões ideológicas, mas também porque é divertido e eu tava fazendo isso por diversão - foi exatamente a tradução cultural. É claro que Hamilton é um musical estadunidense feito por um estadunidense sobre estadunidenses [inserir aqui o Lula falando que estadunidense pensa em estadunidense em primeiro, segundo e terceiro lugar e, se sobrar tempo, pensa também sobre estadunidense], mas mais do que isso, Hamilton é sobre as disputas das narrativas históricas.
Eu não escutei e gostei de Hamilton porque aprendi sobre um momento histórico ou porque adoro estadunidenses (risos), mas porque é uma peça que trata sobre o embate de quem deve contar a História (tm). A grande questão da peça é exatamente que não temos controle da vida e da morte, mas temos, como sociedade, a possibilidade de escolher como vamos narrar os acontecimentos, podemos escolher o que entra e o que não entra pro que chamamos de história e também escolhemos como esses acontecimentos e pessoas são retratados. E isso é algo que não é exclusivo dos EUA, é uma questão da humanidade como um todo.
Particularmente, passei a ouvir Hamilton compulsivamente depois do assassinato da Marielle, em 2018. As questões postas pelo musical sobre quem constrói a história foram fundamentais pra eu poder processar o luto coletivo e elaborar as questões que esse assassinato suscitaram nas esferas públicas e semi-públicas, assim como questões pessoais que tenho quanto a ser sujeita histórica, sujeita social e sujeita tática. E isso se dá porque estamos falando de uma obra de arte, algo que transcende uma única cultura por mais que a retrate profundamente.
Além do mais, é um musical muito divertido. Os personagens são todos horríveis, e todo mundo gosta de lixo.
Po, mas Hamilton não foi cancelado em 2020? O que você acha disso?
Eu acho que quem não tinha parado pra pensar que uma obra que coloca escravocratas como gente boa é problemática tinha que sentar consigo mesmo e pensar sobre a sua própria educação.
Também acho que toda a graça de Hamilton é que é uma obra profundamente complexa em todos os âmbitos desde a sua premissa. É desconfortável. E o desconforto te faz pensar. E pensar, se tudo der certo, te faz agir e lutar por mudanças em si e no mundo.
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Aqui está a lista de todos os títulos originais/ traduzidos:
Alexander Hamilton/ Alexander Hamilton
Aaron Burr, Sir/ Aaron Burr, Senhor
My Shot/ Minha Bala
The Story of Tonight/ A História Dessa Noite
The Schuyler Sisters/ As Irmãs Schuyler
Farmer Refuted/ Fazendeiro Refutado
You’ll Be Back/ Vais Voltar
Right Hand Man/ O Braço Direito
A Winter’s Ball/ Baile de Inverno
Helpless/ Desamparada
Satisfied/ Satisfeitos
The Story of Tonight (reprise)/ A História Dessa Noite (reprise)
Wait for It/ Espera pra ver
Stay Alive/ Fica Vivo
Ten Duel Commandments/ Os Dez Mandamentos do Duelo
Meet Me Inside/ Na Minha Sala
That Would Be Enough/ Isso bastaria
Guns and Ships/ Armas e Barcos
History Has Its Eyes on You/ A História Tá de Olho em Ti
Yorktown (The World Turned Upside Down)/ Yorktown (O Mundo Virou do Avesso)
What Comes Next?/ E Agora?
Dear Theodosia/ Minha Theodosia
Tomorrow There'll Be More of Us (Lauren's Interlude)/ Amanhã Mais Que Um Teatro (Interlúdio do Laurens)
Non-Stop/ Não para
What’d I Miss?/ Perdi O Quê?
Cabinet Battle #1/ Batalha de Gabinete #1
Take a Break/ Dá um Tempo
Say No to This/ Diz Não Pra Isso
The Room Where It Happens/ A Sala Onde Se Sucede
Schuyler Defeated/ Schuyler Derrotado
Cabinet Battle #2/ Batalha de Gabinete #2
Washington on Your Side/ O Washington Te Dar Moral
One Last Time/Uma Última Vez
I Know Him/ Sei quem é
The Adams Administration/ A Administração do Adams
We Know/ Sabemos
Hurricane/ Furacão
The Reynolds Pamphlet/ O Panfleto Reynolds
Burn/ Queimar
Blow Us All Away/ Cê Vai Abalar
Stay Alive (reprise)/ Fica Vivo (reprise)
It’s Quiet Uptown/ É Quieto Aqui
The Election of 1800/ As Eleições de 1800
Your Obedient Servant/ Seu Servo Obediente
Best of Wives and Best of Women/ Melhor de Todas as Mulheres
The World Was Wide Enough/ O Mundo Era Grande
Who Lives, Who Dies, Who Tells Your Story/ Quem Vive, Morre, ou Conta sua História
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Uma das coisas mais divertidas (pra mim, uma pessoa que não sabe se divertir) dessa tradução foi me deparar com questões de escolhas formais pra obra como um todo. Ao longo do processo, fui me dando conta de uma série de escolhas quanto a quando os personagens rimavam ou não rimavam, quais palavras eram usadas e onde se repetiam (pra além dos leitmotifs), as aliterações e rimas internas que podiam ser feitas e em que momento que deveria fazer mais (basicamente: quando o Hamilton tá se exibindo kk). E o lance é que eu tive que traduzir isso tudo, o que significa ter que fazer as minhas escolhas, mas que fossem coerentes com o original enquanto fizessem sentido pra um público brasileiro.
Uma das coisas que mais gosto no nível de detalhe foi a minha escolha de tradução pra "you". Porque acontece que "you" é uma sílaba, enquanto "você" são duas. E, numa tradução em que a métrica importa e o original é em inglês (literalmente a pior língua que existe), essa sílaba faz toda a diferença. No fim, optei por usar "cê" quando os personagens estão falando uns com os outros de forma polida ou simpática (o que cabe dado que é um musical com muitas gírias) e "tu" pra quando eles estão putos. Literalmente cada um desses "cê" e "tu" foram debatidos comigo mesma ou com minha amiga Jumed (que foi quem mais me acompanhou de perto durante todo esse processo de insanidade. Valeu, parça). Então, pfvr, se atentem a isso.
Também foi muito divertido pensar em como traduzir algumas coisas que acabam sendo mais culturais do que qualquer outra coisa. Harlem, por exemplo, virou Zona Norte. Lancelot virou Lampião. Upstate, Nordeste. E uma das minhas piadinhas preferidas com o Rio de Janeiro: "nada é ilegal cruzando o rio" ("nothing is illegal in New Jersey").
Outra coisa que me divertiu muito foi pensar gírias e sotaques. Especialmente quais personagens usariam o quê. O rei inglês, por exemplo, ganhou sotaque português. O Thomas Jefferson, sulista. O Burr fala "mano", George Washington, por ser mais velho, fala "truta".
Isso nos leva a outra questão. Eu tive que parar e estudar a história do rap e hip hop nacional pra poder traduzir essa peça. Foram meses ouvindo e lendo Racionais MCs, Emicida, Djonga, na moral, teve de tudo. Ouvi pra entender o flow em língua portuguesa brasileira, mas principalmente pra entender, aprender e poder honrar a história do nosso rap. Uma das coisas de Hamilton é que tem muitas referências ao rap e hip hop estadunidense - referências que, inclusive, não tinham como manter na tradução - e o mínimo que eu podia era fazer o mesmo com as nossas referências. A minha preferida é que traduzi o "chick-a-plao" pra "ra-tá-tá".
Olha, gente, a real é que português brasileiro é a melhor língua do mundo. E foi muito difícil colocar tudo na métrica porque as palavras em português têm o dobro do tamanho das palavras em inglês, mas mddc é mil vezes mais satisfatória a nossa língua. Poder rimar "alfaiate" com "biscate" é algo que só a língua portuguesa brasileira nos proporciona. Mandar um tchum-tchá ou chamar "ladies" de "tchutchucas". Sem contar, é claro, a quantidade de piada com pinto. Quer dizer, isso dá pra fazer em inglês também, mas mandar um "pega na minha bala" é bem mais divertido do que qualquer trocadilho com "shot".
Falando nisso, "My shot"(Minha Bala) foi um caso especialmente engraçado que definiu uma coisa muito importante sobre a tradução de Hamilton que não tem no mesmo nível que no original: o Alex e todos os seus amigos são um grupo de gays baludas ("Bora tomar uma bala!", disse Hercules Mulligan na primeira versão da tradução). A versão final, na verdade, não ficou tão gay baluda nem tão cheia de menção a sexo, mas eu queria muito, muito mesmo fazer uma versão proibidona com todas as rimas absurdas que pensei quando chapada de zolpidem.
E, assim, é esse o sonho, né? A Claudia Raia me notar, a gente montar um Hamilton BR com a minha tradução, o Lin-Manuel Miranda ver, amar, e me chamar pra escrever uma versão de bailão de "Winters Ball" (Baile de Inverno) com a Ludmilla de intérprete que será lançada nos Hamildrops. @ClaudiaRaia, vamos conversar!!!
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O que posso dizer com certeza absoluta é que traduzir esse musical me ensinou muito sobre escrever. Ritmo, rima, construção de personagem, métrica, desenvolvimento da história, qual forma usar pra qual momento. Não era nada que eu não soubesse em teoria (afinal, eu fiz uma faculdade inteira de Letras, preciso me lembrar), mas sentar e mexer com isso na prática, ainda mais tendo como base um texto tão bom quanto o do Lin, fez toda a diferença. Terminei a tradução me sentindo uma escritora melhor.
Ainda vou sentar aqui e contar um pouquinho do processo de tradução de cada música, caso a caso. Mas, como diria Aaron Burr (senhor), cacete, espera pra ver.
fui 🌻
Você é gênia. <3
ResponderExcluirAmigaaa!!! Eu não teria feito isso sem todo seu amor e motivação <3 <3 <3
Excluirpelo AMOR de DEUS eu PRECISO ver essas letras!!!!!!!!!!!!
ResponderExcluirCLARA DO CÉU, VOCÊ É PERFEITA
ResponderExcluirNão vai sair nem um preview ?
ResponderExcluirAqui é num ritmo anticapitalista, mas vai sim. Vou falar de uma a uma
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